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Encadernação
Centro de Conservação e Referência do Livro


Artigos

Gênese da encadernação

Almir de Oliveira
Historiador e Encadernador desde 1949

A escrita surgiu nos primórdios da civilização, gravada em pedra, em ossos e outros materiais rígidos.

Com o passar do tempo, materiais mais flexíveis passaram a ser empregados, como a folha de palma seca, e a escrita passou a ser gravada com tinta que era fabricada com pó de marfim queimado misturado com resina vegetal e água.

No Egito antigo o papiro passou a ser usado, no início em folhas soltas, e depois estas folhas começaram a ser ordenadas e unidas formando tiras com vários metros de comprimento e enroladas.

Mais tarde esse processo foi evoluindo e essas tiras passaram a ser dobradas e presas a duas placas fortes, para manter as dobras sempre marcadas, nascendo assim as primeiras encadernações.

Os livros eram escritos principalmente em mosteiros e quase sempre sobre temas religiosos, eram quase sagrados. A evolução do livro e da encadernação deu-se de uma forma muito lenta, foram vários séculos com a mesma forma. Em 1456, com a impressão da Bíblia de Gutemberg com os tipos móveis, deu-se a grande revolução. Os livros passaram a ser impressos em grande quantidade e as encadernações seguiram o mesmo caminho.

Com o talento dos primeiros artesãos este processo foi sendo substituído e as placas deram lugar a capas duras confeccionadas com a pele de animais que era curtida e pintada. As encadernações começaram a se transformar em verdadeiras obras de arte, suas capas eram decoradas e suas lombadas passaram a ter títulos dos livros gravados em ouro, as folhas dos livros passaram a ser costuradas dando ao livro o formato que hoje conhecemos.


Maria Salas e a encadernação

Existe uma arte de restaurar livros antigos que sofreram os desgastes do tempo, tarefa delicada e difícil que exige muita habilidade e paciência. Desde que foi reconhecida a importância das encadernações originais, os conservadores passaram a desenvolver técnicas de cirurgiões plásticos, a fim de devolver aos livros parte de seu vigor e prolongar-lhes a vida. Um livro bem conservado pode durar séculos.

Há, no entanto, casos perdidos, especialmente no que diz respeito às encadernações. Para tais situações, existe uma outra arte – a arte de vestir os livros. Nestes casos, torna-se importantíssimo o bom gosto, a sobriedade e o respeito ao conteúdo da obra a ser encadernada. A boa encadernação é um trabalho de artesão, mas muitas vezes torna-se uma atividade artística, conferindo ao invólucro do livro uma feição única que conta com a participação de vários artistas. Foi nesta linha de trabalho que se especializou o ateliê de Maria Salas.

Maria Salas foi formada por Artemis Marques Ferreira, encadernadora que na década de 50 estabeleceu-se no Rio de Janeiro e foi responsável por alguns dos mais importantes trabalhos desenvolvidos na época. Foi seu ateliê, por exemplo, que encadernou a Biblioteca do Jóquei. Além disso, realizou trabalhos para dois Presidentes da República – Juscelino Kubitschek e João Goulart. Quando veio a falecer, em 1964, Artemis doou seu ateliê para Maria Salas.

No currículo de Maria Salas, cabem muitos destaques. Um deles foi a confecção de um álbum de fotografias para o Príncipe Charles, intitulado Hummingbirds of the Espírito Santo State, Brazil, com fotos que o próprio Charles realizou no Brasil, reunindo dezenas de espécies de beija-flores de nossa fauna. Além disso, Maria participou da exposição realizada entre 16/10/1975 e 16/01/1976, no Museu do Jardim Botânico de Nova York, que reuniu 127 trabalhos de 45 membros do Guild Book Workers. O registro desta exposição pode ser encontrado no catálogo da Craft Horizons, de fevereiro de 1976. Desta exposição, Maria Salas participou com três belíssimos trabalhos de encadernação: Receitas, Relíquias da Bahia e Hiléia Amazônica. Este último, encontra-se disponível no X Leilão da Babel Livros. Trata-se de um trabalho único, que envolveu diversos artistas. A concepção e o design da capa é assinado pelo artista plástico Gilles Jacquard. A douração é de Cid Pereira Lopes, e a guarda, em camurça, traz xilogravura de Lygia da Rocha Lima, feita a partir de um desenho do próprio livro.

Mas este é apenas um dos quatro trabalhos do ateliê de Maria Salas que se encontram disponibilizados neste leilão. O livro Lendas Brasileiras também leva a assinatura de Gilles Jacquard e Cid Pereira Lopes, além de papel pintado por Artemis Marques Ferreira. Vale a pena conferir e prestigiar todos estes trabalhos que só fazem confirmar o talento dos encadernadores e a certeza de que um livro bem conservado pode durar muitas décadas: todas as encadernações têm pelo menos 30 anos, embora conservem uma invejável juventude.

sx